sexta-feira, junho 23, 2006



Madrugadas de volúpia


Palavras em sangue te dou à luz,
que escorrendo difusas,
ocres,
anseiam por subterfúgios ao anoitecer.

No poder,
de Ser
ângulo morto de uma existência geométrica,
o espelho absorto de uma mente inquieta, sou eu
no resvalar das tuas chagas,
que em cicatriz, invento no fumo de uma sombra intersectada.

Aconteço,
Nas tuas entranhas.

De parto em parto, hei-de rasgar-te
com pensamentos afiados como machados
e no suor dos sonhos, um abraço.

Eis a metáfora das pequenas ironias
que devasso,
crio
e faço.



terça-feira, junho 13, 2006


Não sei quando te perdi, enquanto te tive.
Estou aqui desde sempre,
tecendo amarras,
esperando por ti do lado de fora do meu corpo.

Na ilusão que visto em opacos véus,
encontro-te no logro de já não saber quem és.


sexta-feira, junho 02, 2006


O velho

Enquanto a multidão se arrasta,
por entre sóis dormentes e espraiados,
o velho dorme,
e na certeza do calor que o envolve,
sou alheio ao sono de mil crepúsculos.

O velho dorme,
na aragem dos vultos que passam, em silêncios cantados que gotejam.
Adormecido nos gestos que respiradamente,
confundo no suor que partilhámos em mortalhas de seda,
no ocaso dos cigarros que se esvaem arrastadamente.

No hipotético sonho de um alheio velho,
sossegadamente,
nas pautas de um momento que invento em piras de fogo invisível,
o velho dorme.
E o palco escurece.


terça-feira, maio 23, 2006




Aforismo


Continuarei no caminho até lado nenhum,
o único onde tudo é possível.
Na doce letargia
de indagar em que atalho sem trilho,

improvisarei o som dedilhado das palavras,
aquelas cujo sentido se inventa no prolongamento da vontade,
inexorável e inequívoca.





sábado, maio 13, 2006


Vidro Duplo

Esperei.
Onde o vinho é servido em doces miragens e o horizonte, uma teia de vidro duplo.

Percorridos estão,
Os sopros indizíveis das palavras mentalmente articuladas,
Mutei-lhes o corpo
Vacilei-te a alma
Comunguei-me o sangue.
.
De que vale a densidade de ser uno
Em grão de pó de Universo condensado...?
.
Murmúrios de reflexos em palavras de vidro duplo.
Sustentam-me os silencios inócuos, nas madrugadas de distância em que te recordarei.


domingo, abril 02, 2006

Paulo césar, 06
Esquizofrenia


Vozes, que brotam de mim.
Dispersam-se esquivas
Fugindo do eco dos meus sonhos.

São lamentos incertos
De todos e de ninguém,
Que me reclamam doridos
Feridos de desdém.

Acendo um cigarro, e com ele,
Vislumbro formas imperfeitas
Que me surgem vis, vagarosas
Moldando-se em mim, tornando-se eu!
Gritos de fumo que acodem em pedaços,
O sonho de uma realidade despedaçada.

Vozes.
Ouço-as à distância de um pensamento.
Sinto-as mais perto de mim.


99

sábado, abril 01, 2006




A noite é o meu ventre materno
Sou eu que não quero sair de mim.


O meu parto, etenas madrugadas
Envoltas em silêncios de cetim.

quarta-feira, março 22, 2006


O estrangeiro


Sabem-me a cinza,
0s pensamentos que acendo respiradamente.
Quebro os gestos,
que a inércia induz repentina.


E na cadência dos voos abreviados,
no sentido das sílabas castradas,
na catarse de uma loucura perene,


Sou imerso na projecção do caminho que me impeço,
Sou regresso em mim para qualquer lugar.


segunda-feira, março 20, 2006



O principio de um novo fim

Em subtilezas me ocorres ó ímpeto difuso,
Nas madrugadas que jazem desterradas,
Nos vultos opacos e disformes
Que se esvaem na algazarra dos anos lassos.


E entre sopros vertidos aleatoriamente,
Na erosão que te sulca o rosto baço,
Esculpem-se sombras do teu cansaço
Cumpre-se o sangue que percorro em mim
Pele de cetim,
Que visto como um disfarce de criança.

O vento sabe-me a acre,
Mas trouxe o orvalho das palavras.

E a objectividade de acordar no vazio, é uma pintura que acabo com o olhar.

quinta-feira, março 16, 2006



Salto de fé

Colidi na sombra de ser quem sou,
Lateja-me um Êxtase displicente,
Que draga as intempéries
Num mar de cinza,
E se esvai por um deus aparente.
Esventrei-o em fornalhas de estupro,
Em arquétipos e átomos de instantes
Alimentando em sopros o gatilho
Que capitula por versos sibilantes.


segunda-feira, março 13, 2006



O Sal de nós


Exala-me em fogo-fátuo de lânguidos bocejos,
No marulhar de um canto de indizíveis apelos,
Em delírios de náufragos e convulsões residuais
No fluir de uma fogueira de insónias verticais.

Inventa-me em relevos, com palavras de saliva
Serão teus os meus segredos
Esfacelados em surdina,
Numa despedida dormente, envolta em músculos lassos,
Absinto em corpo ausente,
Delírios,
Abraços.


sexta-feira, março 10, 2006




A vigília


Encontro-te.
Na luminosidade fugídia.
Onde escassos rasgos de luz
Incolor e artificial,
Anunciam a hora tardia.

Encontro-te.
Perpetuada nos meus sentidos.
Estranhamente me acordas,
Na Hora dos adormecidos.

Remetes-me ao silêncio
De uma solidão anunciada.
Contigo, em tudo participo,
Mas é na ilusão que se desfaz
Que me dissipo,
E sou aquém da realidade atordoada.

Encontras-me.
Onde nada compreendes.
Sou mil murmúrios alados
Que se dispersam esquivos e irados
A esbaterem-se felizes nas paredes.

Rasgam o silêncio, subitamente
Roubando o sono que vós não tendes.

sexta-feira, março 03, 2006



Um ápice vicioso


Já não sou eu.
Onde estava, esqueci-me,
Num qualquer momento
Desta vida intemporalmente súbita.
O tempo atrasou-se.
Eu fui embora.
E só sei que ele passa quando olho para trás e vejo
No percurso que não deixei,
O tempo, que nunca quis ser percorrido.

sábado, fevereiro 25, 2006

Branco.
Como o silencio das palavras de todas as cores.
O meu comboio de fumo desliza por fátuos oceanos,
E submerge em apeadeiros de papel.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006


A certeza do acaso


A minha verdade é o pulsar de um pequeno nada,
Um esquecimento, um favor que julguei perdido.
A marcha impassível e eterna do mundo,
Que se me entranha nas crenças que não tenho
E nas ânsias que repudio.

A minha verdade é acordar em sonhos alheios,
E banhar-me na espuma de um céu escarlate.
É despertar com o cheiro a maresia,
Dos oceanos em que me afogarei um dia,
É a urgência de encontrar-te.

A minha verdade?
Não procura certezas, alimenta subtilezas,
Na equação das histórias incompreendidas.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006


Ser aqui


Ó luz filtrada pela lua,
Neste papel ocre por ti iluminado
Escrevo o sonho que é ver-te assim,
Perfeita,
Em tudo o que tinges de branco frio fantasmagórico.

Neste papel,
Passei os dedos suavemente,
Para que de mim
Pudesses reter o que sinto;
O meu coração a bater em tudo, pulsa em todas as coisas!

Estou aqui.
Sou aqui.
Alma em tudo o que alcanço,
Luz em sombra, por tudo o que vejo.
Sou aqui, sempre.
Onde o horizonte me é palpável aos sentidos,
E dança,
Na distancia imediata entre o meu pensamento.



00


Incapacidade


Sento-me.
Quero pensar,
Mas vagueio na inércia do meu pensamento.
O que flúi, é a incapacidade de ser eu, aqui.
Por isso, vou para onde me sinto.

Onde?
È para onde vou.
Vou…., com a incapacidade de ser o que sinto.

Vim aqui ao pé do mar,
Para pensar, e escrever,
Mas vou embora com a incapacidade
De sentir o que escrevi.


00

O Cais

Ao largo desta estrada, com o rio como beiral
Sou cúmplice das gaivotas de uma vida marginal.
Afago-me nos reflexos que o sol derrama no rio,
E sou mais que os complexos que me inventam aturdido.

Não sei porque estou assim
Nem sei se a vida é fado…

Cruzo a ponte que une as margens do meu ser
E conto os passos que me devolvem à ignorância.
De que vale percorrer o trilho ao amanhecer
Se me perco em mil mágoas de distância ?


jim

quarta-feira, fevereiro 22, 2006


Um dia de chuva


Olho.
Com vazio no olhar,
Os destinos que se cruzam, repetidamente
Sem se tocar.
Apenas distingo a indiferença
De olhar o percurso banal do que se move,
Que fluí eternamente
Nos ruídos impacientes
Dos suspiros de quem morre.

Escrevo-os na lama. Remexo em sonho e caos, e
Nas poças barrentas que me reflectem
Ocre e sujo,
Piso os buracos negros do
Esquecimento que virá.
Pisando dejectos do caminho de quem os deixou,
Tenho nos pés a vontade dos que passaram.

Quero viver num momento
Toda uma vida…
E partir no reflexo que a água
Sórdida me devolveu.


Aurora

Entre as sombras, o espaço, irremediavelmente pequeno.
Vultos cinzentos e espasmos prolongados.
Olhares de sangue que no limbo se dissipam, por ser tarde demais.

Procurámos no tempo, inexistente, visões distintas do inatingível e
percorremos O interminável muro branco com a nudez do vento incandescente…
sons mudos,
no vácuo que só nós conhecemos.

No crepúsculo, os sentidos apuram o cheiro a terra molhada.
Banho-me em madrugadas de volúpia.

O covil

Sentado no cadeirão preto,
Contemplo o vazio.
Assaltado por ideias de nada,
Escrevo fragmentos dispersos
Nos vidros que parti.
Tinjo essas palavras de vermelho vivo e sorvo os silêncios demoradamente.

Os sentidos são gumes afiados,
Cortam em sangue e lavram em fúria;
Impressões ocas, frias e sem textura.

Do fumo ondulante que aos meus olhos se atiça,
Eu só queria ver o brilho por entre a cinza.

Ser

Já fui
O que podia ter sido.
Restam as lembranças
num futuro longínquo
daquilo que eu não sou.

Agora estou aqui,
sem ser o que podia ter sido,
Mas o que fui, sou eu
na esperança de ser o que sou.