
O velho
Enquanto a multidão se arrasta,
por entre sóis dormentes e espraiados,
o velho dorme,
e na certeza do calor que o envolve,
sou alheio ao sono de mil crepúsculos.
O velho dorme,
na aragem dos vultos que passam, em silêncios cantados que gotejam.
Adormecido nos gestos que respiradamente,
confundo no suor que partilhámos em mortalhas de seda,
no ocaso dos cigarros que se esvaem arrastadamente.
No hipotético sonho de um alheio velho,
sossegadamente,
nas pautas de um momento que invento em piras de fogo invisível,
o velho dorme.
E o palco escurece.

4 comentários:
o sono pode ser uma forma de evasão...talvez aquela que nos faz não sucumbir. e por vezes desejamos ser 'esse' velho reinventarmos o sonho...
beijos.
(só agora vi que ainda não coloquei um link para o teu espaço, vou fazê-lo já!):)
olá, vim cá a partir da Barca de Lyra da Mafalda. Gostei do blogue, espero que se iniciem aqui laços de revisitas mútuas.
que acontece às crianças, depois?
não sei!
mas, tu és um boneco. tu disseste que sabias tudo, que me contavas. eu contei-te como Ela me fez, porque me fez assim e me vestiu de seda.
ficam velhos.
ficam quê?
velhos! não sabes? os velhos não sonham.
sonham, sim que eu vi que ele sonhava.
viste? quando?
quando o homem foi com o filho apregoar a peça de teatro e eu vi que mexia que era boneca mas que mexia.e sabes que eu ainda sei mais?
que sabes tu mais do que eu? tu és uma boneca, és timida, envergonhada. não sabes, não.
sei!
foi o velho que te fez com as coisas que encontrou e guardou. coisas que para o homem do tambor não serviam para nada, nem para Ela que me fez.
mas...
shiu! ele fez-te devagar porque tem um coração igual ao meu e ao teu e quis ter um amigo.
e?
agora já somos quatro, porque Ela, que me fez, viu o velho e ficou a ver como ele te ia fazendo.
afinal tu sabes tanto!
pois sei.
sou boneca, estou vestida de seda mas sei muitas coisas.
e que sabes tu mais?
que há um outro, que nos está a ouvir.
quem? o homem do tambor? põe-te boneca, depressa, para que ele não veja que mexemos, que somos como eles!
calma! não é o homem do tambor!
é um como nós, mas é pessoa, não é boneco. vem à noite!
e que vem fazer?
vem olhar um velho que dorme e vem escurecer o palco.
para quê?
para que possamos conversar, ouvir o nosso coração de bonecos e sentir que todos nós, quatro, afinal, sonhamos.
Se queres ler uma peça de teatro maravilhosa, perde-te com Almada Negreiros e o seu texto "Antes de começar". Foi nela que me baseei para comentar esta maravilha de poema!
Disseste que te sentarias lá, no alpendre?
Vem quando quiseres, que a cadeira de balanço está lá, à tua espera.
Eu? Venho e virei muitas vezes porque gostei demais destas Madrugadas (de Volúpia)...
Beijo,
Cris
Olá cris,
O velho é a constatação, a certeza que a vida se cumpre.
Olhamos para O Velho e vemos os nossos sonhos pelo lado de fora...
Gostei mt do teu comentário e concerteza q darei uma vista de olhos pela peça do Almada Negreiros...
Fica bem,
serás sempre bem vinda
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