quinta-feira, fevereiro 23, 2006


Ser aqui


Ó luz filtrada pela lua,
Neste papel ocre por ti iluminado
Escrevo o sonho que é ver-te assim,
Perfeita,
Em tudo o que tinges de branco frio fantasmagórico.

Neste papel,
Passei os dedos suavemente,
Para que de mim
Pudesses reter o que sinto;
O meu coração a bater em tudo, pulsa em todas as coisas!

Estou aqui.
Sou aqui.
Alma em tudo o que alcanço,
Luz em sombra, por tudo o que vejo.
Sou aqui, sempre.
Onde o horizonte me é palpável aos sentidos,
E dança,
Na distancia imediata entre o meu pensamento.



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Incapacidade


Sento-me.
Quero pensar,
Mas vagueio na inércia do meu pensamento.
O que flúi, é a incapacidade de ser eu, aqui.
Por isso, vou para onde me sinto.

Onde?
È para onde vou.
Vou…., com a incapacidade de ser o que sinto.

Vim aqui ao pé do mar,
Para pensar, e escrever,
Mas vou embora com a incapacidade
De sentir o que escrevi.


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O Cais

Ao largo desta estrada, com o rio como beiral
Sou cúmplice das gaivotas de uma vida marginal.
Afago-me nos reflexos que o sol derrama no rio,
E sou mais que os complexos que me inventam aturdido.

Não sei porque estou assim
Nem sei se a vida é fado…

Cruzo a ponte que une as margens do meu ser
E conto os passos que me devolvem à ignorância.
De que vale percorrer o trilho ao amanhecer
Se me perco em mil mágoas de distância ?


jim

quarta-feira, fevereiro 22, 2006


Um dia de chuva


Olho.
Com vazio no olhar,
Os destinos que se cruzam, repetidamente
Sem se tocar.
Apenas distingo a indiferença
De olhar o percurso banal do que se move,
Que fluí eternamente
Nos ruídos impacientes
Dos suspiros de quem morre.

Escrevo-os na lama. Remexo em sonho e caos, e
Nas poças barrentas que me reflectem
Ocre e sujo,
Piso os buracos negros do
Esquecimento que virá.
Pisando dejectos do caminho de quem os deixou,
Tenho nos pés a vontade dos que passaram.

Quero viver num momento
Toda uma vida…
E partir no reflexo que a água
Sórdida me devolveu.


Aurora

Entre as sombras, o espaço, irremediavelmente pequeno.
Vultos cinzentos e espasmos prolongados.
Olhares de sangue que no limbo se dissipam, por ser tarde demais.

Procurámos no tempo, inexistente, visões distintas do inatingível e
percorremos O interminável muro branco com a nudez do vento incandescente…
sons mudos,
no vácuo que só nós conhecemos.

No crepúsculo, os sentidos apuram o cheiro a terra molhada.
Banho-me em madrugadas de volúpia.

O covil

Sentado no cadeirão preto,
Contemplo o vazio.
Assaltado por ideias de nada,
Escrevo fragmentos dispersos
Nos vidros que parti.
Tinjo essas palavras de vermelho vivo e sorvo os silêncios demoradamente.

Os sentidos são gumes afiados,
Cortam em sangue e lavram em fúria;
Impressões ocas, frias e sem textura.

Do fumo ondulante que aos meus olhos se atiça,
Eu só queria ver o brilho por entre a cinza.

Ser

Já fui
O que podia ter sido.
Restam as lembranças
num futuro longínquo
daquilo que eu não sou.

Agora estou aqui,
sem ser o que podia ter sido,
Mas o que fui, sou eu
na esperança de ser o que sou.